” Vozes insurgentes: diversidade brasileira em foco na Linguística” é uma obra de 2025 organizada por Jorcemara Matos Cardoso e Maísa Ramos, publicada pela Editora da Abralin (Clik aqui para baixar o livro), que reúne oito capítulos de pesquisadoras brasileiras.
O livro destaca a heterogeneidade linguística do Brasil, combatendo a ideia de um país monolíngue e valorizando variantes indígenas, afro-brasileiras e de imigrantes. reúne oito capítulos de pesquisadoras da área da Linguística que versam sobre questões relativas à diversidade brasileira a partir de referenciais teóricos diversos. As autoras refletem sobre questões de linguagem atravessadas pelo social, histórico, político, ideológico, dialetológico, mobilizando tanto conceitos consagrados nos Estudos da Linguagem como forjando noções atinentes aos/às sujeitos/as e/ou objetos implicados nas análises.
Esta coletânea emerge como um espaço de encontro e convergência
de pesquisadoras que desempenharam e têm desempenhado um
papel importante na e para a Linguística no Brasil. Ao longo de dife
rentes momentos, as vozes e as memórias dessas mulheres se entre
laçaram em mesas-redondas, conferências e arenas organizadas pela
Comissão de Diversidade, Inclusão e Igualdade da Associação Brasilei
ra de Linguística (CDII-Abralin), fazendo ranger a rica diversidade de
epistemologias, de vivências, de vozes, de territorialidades, de objetos
e de campos de estudo na Linguística brasileira.
(Cardoso & Ramos, p. 9, 2025)
Sobre memórias e universidades na Amazônia: interfaces entre línguas indígenas e os estudos do discurso
Este capítulo, de autoria da professora Ivânia dos Santos Neves, líder do GEDAI, narra sua trajetória acadêmica. Uma pesquisadora que cursa graduação em Letras e mestrado em Antopologia na Univesidade Federal do Pará.
Ela mostra como as diferentes correntes dos estudos das linguagens chegavam à maior universidade da Amazônia no pós-ditadura civil-militar (1964-1985). Faz uma deferência pessoal e acadêmica a duas mulheres indígenas fundamentais em suas sociedades para a manutenção de suas ancestralidade.
Ela narra seu encontro com Maria do Rosário Gregolin, uma acontecimento definitivo para sua inserção nos estudos do discurso foucaultiano.
Quando ingressei na universidade, a ordem imposta pelos militares ainda estava completamente estabelecida. O regime de créditos das disciplinas dispersava os estudantes em turmas aleatórias e desfavorecia a formação de grupos. As matrizes curriculares estavam com prometidas com uma epistemologia de exclusão dos saberes locais e das reflexões políticas. Em 1987, no curso de Letras da Universidade Federal do Pará (UFPA), havia apenas um nível de Linguística e quatro de Língua Portuguesa, voltados à estrutura interna da língua (Neves, 2025, p.36).
Essas mulheres cantaram as cantigas, contaram as histórias, preservaram os nomes ancestrais e fizeram questão de marcar suas subjetividades indígenas. Quando pensamos a linguagem de dentro destas diversas Amazônias, necessariamente devemos reverenciar essas grandes mestras. Suas trajetórias não passam pela universidade, mas elas são verdadeiras heroínas brasileiras na área da linguagem e merecem nosso reconhecimento, porque graças a essas mulheres e tantas outras mulheres indígenas no Brasil, hoje, ainda existe essa espetacular diversidade linguística. Poderíamos não ter, por tudo que houve de perseguição(Neves, 2025, p.40).
Atuei como professora de língua portuguesa na Educação Básica, em Belém, por quinze anos. Minha prática de sala de aula também me colocou o desafio das matrizes curriculares descontextualizadas. O ensino de estruturas gramaticais, nessa perspectiva, não produzia resultados positivos. A carga horária mínima das aulas de redação diante das aulas de língua portuguesa representava um paradoxo e nos perguntávamos quais os objetivos dessas aulas. A dificuldade com a produção de texto era desanimadora (Neves, 2025, p.40).
Rosário Gregolin representa um encontro pessoal e acadêmico especialmente significativo, um encontro repleto de reconhecimento. Em minhas homenagens às mulheres linguistas, não seria justo trazer uma única linguista, mas se fosse imperativo fazer essa escolha, seria Rosário Gregolin, pela enorme diferença que provocou em minha trajetória acadêmica e por sua influência na Pós-Graduação da Amazônia (Neves, 2025, p.45).
O texto de Ivânia dos Santos Neves é um manifesto político e acadêmico que entrelaça sua trajetória pessoal, como mulher negra e amazônida, com a história da linguística e das universidades no Brasil. A autora inicia com um agradecimento à ABRALIN pelo reconhecimento das mulheres linguistas, contextualizando essa homenagem em um cenário de avanço do autoritarismo que busca silenciar minorias. Ela critica a fundação das universidades brasileiras, como a USP e a UFPA, definindo-as como braços de um dispositivo colonial que, desde o século XIX, priorizou epistemes eurocêntricas e silenciou os saberes locais, tratando as línguas e culturas indígenas apenas como objetos de estudo exóticos e “atrasados”.
Ao rememorar sua graduação em Letras na UFPA em 1987, Neves descreve uma universidade branca e masculina, onde a estrutura militar de créditos e currículos voltados ao formalismo europeu impedia reflexões políticas e a valorização da diversidade linguística da Pan-Amazônia. Ela destaca a importância de mulheres pioneiras que romperam esse silêncio: Leopoldina Araújo, que iniciou as pesquisas com o povo Parkatejê; Ingedore Koch, que revolucionou o ensino com a Linguística Textual; e Eni Orlandi, cuja obra sobre o trágico encontro entre indígenas e europeus a levou ao doutorado na Unicamp. Um ponto central do texto é a homenagem a Rosário Gregolin, sua mentora, que introduziu o pensamento de Michel Foucault na área da linguagem no Brasil e foi peça-chave na consolidação da pós-graduação na Amazônia através de projetos de cooperação interinstitucional.
Além das figuras acadêmicas, a autora eleva ao status de mestras da linguagem mulheres indígenas como Verônica Tembé e Arihêra Suruí, que resistiram à violência da ditadura militar e preservaram suas línguas e rituais ancestrais. O texto culmina em uma nota de esperança e resistência, celebrando a nota 6 da pós-graduação em Letras da UFPA e a entrada crescente de estudantes indígenas, quilombolas e ribeirinhos na universidade — como sua orientanda, a escritora Márcia Kambeba. Para Neves, essa “revolução colorida” é o que permite, finalmente, desestabilizar as identidades homogêneas impostas sobre a Amazônia e construir uma ciência que não seja mais monocultural, mas sim pautada pela interculturalidade e pelo respeito à diversidade de saberes.
