Quando ingressei na universidade, a ordem imposta pelos militares ainda estava completamente estabelecida. O regime de créditos das disciplinas dispersava os estudantes em turmas aleatórias e desfavorecia a formação de grupos. As matrizes curriculares estavam com prometidas com uma epistemologia de exclusão dos saberes locais e das reflexões políticas. Em 1987, no curso de Letras da Universidade Federal do Pará (UFPA), havia apenas um nível de Linguística e quatro de Língua Portuguesa, voltados à estrutura interna da língua (Neves, 2025, p.36).
Essas mulheres cantaram as cantigas, contaram as histórias, preservaram os nomes ancestrais e fizeram questão de marcar suas subjetividades indígenas. Quando pensamos a linguagem de dentro destas diversas Amazônias, necessariamente devemos reverenciar essas grandes mestras. Suas trajetórias não passam pela universidade, mas elas são verdadeiras heroínas brasileiras na área da linguagem e merecem nosso reconhecimento, porque graças a essas mulheres e tantas outras mulheres indígenas no Brasil, hoje, ainda existe essa espetacular diversidade linguística. Poderíamos não ter, por tudo que houve de perseguição(Neves, 2025, p.40).
Atuei como professora de língua portuguesa na Educação Básica, em Belém, por quinze anos. Minha prática de sala de aula também me colocou o desafio das matrizes curriculares descontextualizadas. O ensino de estruturas gramaticais, nessa perspectiva, não produzia resultados positivos. A carga horária mínima das aulas de redação diante das aulas de língua portuguesa representava um paradoxo e nos perguntávamos quais os objetivos dessas aulas. A dificuldade com a produção de texto era desanimadora (Neves, 2025, p.40).
Rosário Gregolin representa um encontro pessoal e acadêmico especialmente significativo, um encontro repleto de reconhecimento. Em minhas homenagens às mulheres linguistas, não seria justo trazer uma única linguista, mas se fosse imperativo fazer essa escolha, seria Rosário Gregolin, pela enorme diferença que provocou em minha trajetória acadêmica e por sua influência na Pós-Graduação da Amazônia (Neves, 2025, p.45).