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TESE DE DOUTORADO INVESTIGA O PERCURSO HISTÓRICO E POLÍTICO DO ENUNCIADO “SAPATÃO”

No dia 21 de agosto, a pesquisadora Cristiane Helena Silva de Oliveira, integrante do Grupo de Estudo Mediações, Discursos e Sociedades Amazônicas (GEDAI/CNPq), defendeu sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará (PPGL/UFPA). Intitulado “Entre Dispositivos Coloniais e Resistências: Narrativas Sapatão no Brasil e a Ressignificação da Matinta Pereira na Amazônia”, o trabalho foi orientado pela professora Ivânia Neves.

A pesquisa investiga o percurso histórico e político do enunciado “sapatão”, compreendido não apenas como palavra, mas como prática discursiva marcada por silenciamentos coloniais e, ao mesmo tempo, pela potência da resistência. Ao longo da tese, Cristiane Oliveira percorre desde as Çacoimbeguiras indígenas até a figura da Matinta Sapatão, analisando os apagamentos e perseguições às vozes lésbicas, da censura à escrita durante a ditadura militar até as lutas contemporâneas na Amazônia. A autora demonstra como essas vozes, apesar de reprimidas, nunca deixaram de ecoar, afirmando-se hoje como epistemologias insurgentes que confrontam a colonialidade e projetam novos mundos possíveis.

A recém doutora explica como a sua vida pessoal a motivou em sua pesquisa. “Sapatão não é só o que eu sou. É o que me jogaram na cara quando eu ainda nem sabia traduzir o que sentia. É o riso na escola, o dedo apontado na missa, o ‘mas você é tão inteligente’ da tia bem-intencionada. É também o nome que eu reclamo hoje, afiando letras acadêmicas como facas, porque essa tese não é só sobre um termo, é sobre corpos que ousam existir fora das margens desenhadas a lápis rosa. Revisitar minha história para escrevê-la doeu. Encontrei ali a criança que acreditava que diplomas a lavariam do ‘pecado’, a adolescente que rezava para acordar ‘normal’, a mulher que descobriu que sua voz acadêmica era, afinal, o machado que faltava para rachar o armário. Mas também encontrei algo mais: a rede invisível de outras sapatões que, como eu, transformaram opressão em revolução. Escrevo para que nossas cicatrizes virem mapas”, declara. 

A tese foi avaliada pelas professoras Maria do Rosário Gregolin (UNESP), referência em Análise do Discurso no Brasil; Denise Witzel (UNICENTRO), Márcia Kambeba, primeira doutora indígena do PPGL/UFPA        e Gabriela Jerônimo (UEMASUL). A banca avaliadora destacou a relevância desta pesquisa. “Muito mais do que acadêmica, uma tese tem que ser política, parabenizo a Cristiane e a professora Ivânia, certamente esta tese rompe com um modelo de sociedade e de universidade que ainda se estruturam, em grande parte, sobre bases heteronormativas, machistas e patriarcais”, avaliou Rosário Gregolin.


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