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Entre rios, saberes e fraturas: doutorando do PPGL/UFPA e pesquisador do GEDAI realiza qualificação em território ribeirinho de Cametá/PA

Entre rios, saberes e fraturas: doutorando do PPGL/UFPA e pesquisador do GEDAI realiza qualificação em território ribeirinho de Cametá/PA

Geciel Ranieri Furtado é o primeiro doutorando da turma de doutorado flexibilizada em Cametá pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPA a realizar a qualificação.

Intitulada “ENTRE RIOS, SABERES E FRATURAS NA PAN-AMAZÔNIA: CONTRA-COLONIALIDADES NAS ILHAS DO BAIXO TOCANTINS EM CAMETÁ”, a pesquisa está vinculada à área de Estudos Linguísticos e à linha de pesquisa Análise, Descrição e Documentação de Línguas Naturais e Cosmologias Indígenas, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Ivânia dos Santos Neves.

O momento teve ainda um significado histórico para a interiorização da pós-graduação na região: Geciel foi o primeiro aluno da turma de doutorado flexibilizada em Cametá pelo PPGL/UFPA a realizar a qualificação. A atividade representa, portanto, não apenas uma etapa acadêmica individual, mas também um marco no processo de consolidação da formação doutoral em Letras no município e na região do Baixo Tocantins.

Uma qualificação atravessada pelo território

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A proposta da qualificação rompeu com uma concepção de universidade isolada de seu território de pesquisa. Em vez de concentrar toda a atividade em um espaço acadêmico convencional, a banca foi conduzida por um percurso pelas águas e pelas paisagens do Baixo Tocantins, aproximando as pesquisadoras e os pesquisadores da realidade ribeirinha que constitui o próprio campo de investigação do doutorando.


A experiência foi pensada como uma verdadeira travessia.

O percurso começou com o deslocamento pelo território ribeirinho, possibilitando à banca conhecer espaços que atravessam a trajetória pessoal e intelectual do pesquisador. Entre esses lugares esteve a terra de seu avô, espaço de memória e de transmissão de saberes, onde foi possível observar elementos da vida cotidiana e das relações estabelecidas entre as comunidades, as águas, a floresta e o território.
A escolha desse percurso não foi apenas simbólica. Ela está diretamente relacionada à perspectiva epistemológica assumida pela pesquisa: antes de falar sobre o território, é preciso atravessá-lo. Nesse sentido, a qualificação tornou-se também uma experiência de escuta e de diálogo com os saberes produzidos no cotidiano das comunidades ribeirinhas.

Pesquisa, memória e contra-colonialidades

A tese parte da compreensão de que os territórios amazônicos não podem ser pensados somente a partir de categorias produzidas externamente às comunidades que os habitam. As águas, as narrativas, os modos de vida, os conhecimentos sobre a natureza, as práticas linguísticas e as memórias constituem formas próprias de produzir e transmitir conhecimentos. 
Ao investigar as contra-colonialidades nas ilhas do Baixo Tocantins, a pesquisa busca evidenciar saberes, práticas e formas de existência que resistem às tentativas históricas de apagamento, homogeneização e subalternização dos povos e comunidades amazônicas. 
Entre os elementos mobilizados na investigação estão os saberes ribeirinhos, as narrativas orais, a memória, o território, a ancestralidade, as relações de poder e as práticas linguísticas.
A pesquisa também estabelece diálogos com a dimensão mais ampla da Pan-Amazônia, considerando que os rios historicamente constituíram caminhos de circulação de pessoas, conhecimentos, palavras e narrativas.
Como sintetiza uma das formulações que atravessam a pesquisa: “Antes da colonização, a palavra indígena transitava por esses rios” (Neves; Belaunde, 2025, p. 23).
A afirmação desloca o olhar sobre os rios amazônicos: eles deixam de ser compreendidos apenas como elementos geográficos e passam a ser percebidos como espaços de circulação de saberes, línguas, memórias, relações e formas de existência.

A banca examinadora

A qualificação contou com uma banca composta por pesquisadoras de diferentes instituições e trajetórias acadêmicas, ampliando o diálogo interdisciplinar e internacional em torno da pesquisa.
A banca foi formada pela orientadora, Prof.ª Dr.ª Ivânia dos Santos Neves, do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPA; pela examinadora externa titular, Prof.ª Dr.ª Luisa Elvira Belaunde Olschewski, da Universidad Nacional Mayor de San Marcos (UNMSM), no Peru; pela examinadora interna titular, Prof.ª Dr.ª Maria Lucilena Gonzaga Costa Tavares, da UFPA/PPGL; e pela examinadora externa suplente, Prof.ª Dr.ª Jorcemara Matos Cardoso, da Universidade de
Jena, na Alemanha.  

A presença de uma banca com participação nacional e internacional reforçou a dimensão amazônica e transfronteiriça da pesquisa, especialmente por sua interlocução com estudos sobre povos indígenas, cosmologias, linguagem, território e relações de poder. 

Um marco para o doutorado em Cametá

A realização da qualificação possui uma importância que ultrapassa a trajetória acadêmica do pesquisador. Como primeiro aluno da turma de doutorado flexibilizada em Cametá pelo PPGL/UFPA a chegar à etapa de qualificação, Geciel Ranieri Furtado inaugura uma nova etapa para a formação doutoral no município. A experiência demonstra a possibilidade de produção de conhecimento científico a partir dos próprios territórios amazônicos, aproximando a universidade das comunidades e das experiências sociais que constituem a região.
Mais do que levar o doutorado para o interior, trata-se de reconhecer que o interior também produz conhecimento, teoria, memória e epistemologias próprias. Nesse sentido, a qualificação realizada pelas águas do Baixo Tocantins representa uma inversão importante: o território deixa de aparecer apenas como objeto da pesquisa e passa a ocupar o lugar de espaço produtor de conhecimento.

Da travessia à escrita acadêmica

Depois do percurso pelo território, a atividade culminou na apresentação e discussão acadêmica da pesquisa, quando o doutorando apresentou à banca os caminhos teóricos, metodológicos e analíticos construídos ao longo da investigação.
O encontro possibilitou o aprofundamento das discussões sobre linguagem, território, memória, ancestralidade, saberes ribeirinhos e colonialidade, além de contribuir para o amadurecimento da tese a partir das considerações da banca examinadora.
A qualificação marcou, assim, uma passagem importante no percurso de Geciel: entre as águas que atravessam sua trajetória e a escrita acadêmica que busca produzir conhecimento sobre esses territórios, a pesquisa reafirma a necessidade de construir uma ciência capaz de escutar os rios, reconhecer os saberes e enfrentar as fraturas produzidas pela colonialidade.
Ao realizar sua qualificação em diálogo direto com o território ribeirinho de Cametá, o pesquisador transforma uma etapa institucional do doutorado em uma experiência de encontro entre universidade, comunidade, memória e território.

Uma travessia que começa nos rios, passa pela memória e chega à universidade — sem deixar
o território para trás. 

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