Pular para o conteúdo
Início » TESE DE DOUTORADO INVESTIGA APAGAMENTOS DA MEMÓRIA TUPINAMBÁ E AS IRRUPÇÕES DE MAIRI NO CONTEMPORÂNEO

TESE DE DOUTORADO INVESTIGA APAGAMENTOS DA MEMÓRIA TUPINAMBÁ E AS IRRUPÇÕES DE MAIRI NO CONTEMPORÂNEO

A pesquisadora Camille Nascimento, integrante do Grupo de Estudo Mediações, Discursos e Sociedades Amazônicas (GEDAI/CNPq), defendeu sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL/UFPA). Intitulada “Mairi: heterotopias no litoral da Amazônia”, a pesquisa, desenvolvida desde 2021, foi orientada pela Profa. Dra. Ivânia dos Santos Neves.

A tese investiga os processos históricos de apagamento da memória Tupinambá e as formas de irrupção dessa memória no contemporâneo, com atenção à construção histórica dos sentidos atribuídos ao enunciado “Mairi”, compreendido como “terra de Maíra”. A denominação foi atribuída pelos Tupinambá à região do litoral amazônico, território que, na configuração político-administrativa atual, compreende áreas dos estados do Maranhão, Pará, Amazonas e Amapá.

A partir da perspectiva discursiva, a pesquisa analisa as disputas em torno dos sentidos de Mairi e os modos pelos quais diferentes saberes e discursos participam da produção, circulação, legitimação e silenciamento de determinadas memórias. Para isso, a pesquisadora realizou a análise de dezoito dicionários, nos quais identificou diferentes processos de significação do enunciado.

“A partir da análise de dezoito dicionários, identificamos disputas de sentidos que ora se ancoram nos saberes Tupinambá, ora reproduzem o discurso colonial, que reconfigura ‘Mairi’ como ‘terra dos franceses’. Essas diferentes formulações evidenciam a atuação de dispositivos de poder na produção e legitimação de saberes e na constituição de determinadas memórias sobre a Amazônia”, explica a recém-doutora.

A pesquisa também desloca o olhar para a Mairi contemporânea, compreendida para além de sua presença nos registros acadêmicos e históricos. A tese observa os espaços urbanos, as práticas cotidianas e as materialidades nas quais a ancestralidade indígena encontra possibilidades de reinscrição, visibilização e atualização.

Nesse percurso, as obras do artista And Santtos e o bairro da Terra Firme, em Belém, constituem importantes materialidades de análise. Esses espaços e produções artísticas evidenciam a persistência de saberes e memórias indígenas, bem como seus processos de reinvenção no presente. “Em contraposição aos processos de silenciamento, enfatizamos a Mairi contemporânea, observada não apenas no âmbito acadêmico, mas principalmente nas práticas cotidianas de uma cidade, em seus espaços de reinscrição e visibilização da ancestralidade indígena. As obras do artista And Santtos, assim como o bairro da Terra Firme, configuram materialidades que revelam a persistência, a atualização e a reinvenção de saberes e memórias indígenas”, afirma Camille Nascimento.

 

A defesa contou com uma banca composta pela Profa. Dra. Jorcemara Cardoso (Universidade de Jena — Alemanha), pela Profa. Dra. Luisa Olschewski (UNMSM — Peru) e pelos professores Aldrin Figueiredo (UFPA), Arkley Bandeira (UFMA) e José Bessa Freire (UNIRIO).

Para a Profa. Dra. Jorcemara Cardoso, a tese apresenta uma dimensão cartográfica ao articular diferentes temporalidades, narrativas e experiências. “A sua pesquisa faz um traçado entre aquilo que é construído como passado, apresenta as narrativas, os textos, fala do presente e da sua própria existência, e tensiona os regimes de verdade”, avaliou.

O Prof. Dr. Aldrin Figueiredo destacou a dimensão memorialística e a relevância histórica da pesquisa. “O começo é um memorial muito instigante, onde ela se apresenta e se reencontra, ela apresenta a memória de suas famílias, as conexões entre o Pará, Maranhão, Pernambuco. A relevância do tema nos traz um processo de questionamento da macronarrativa histórica do passado”, analisou.

Segundo a Profa. Dra. Ivânia dos Santos Neves, orientadora da pesquisa, a tese representa uma contribuição inédita para os estudos sobre ancestralidade indígena. “Esta pesquisa é um marco nas pesquisas sobre ancestralidade indígena, sendo a primeira tese de doutorado sobre Mairi. A partir daqui vamos ter muitos outros trabalhos e a tese da Camille vai ser referência para os próximos pesquisadores de Mairi”, afirma.

A defesa da tese “Mairi: heterotopias no litoral da Amazônia” amplia, assim, as possibilidades de investigação sobre as relações entre memória, discurso, poder, território e ancestralidade indígena na Amazônia, ao colocar em evidência as disputas de sentidos em torno de Mairi e as formas pelas quais essa memória irrompe, resiste e se reinscreve no presente.

TESE DE DOUTORADO INVESTIGA APAGAMENTOS DA MEMÓRIA TUPINAMBÁ E AS IRRUPÇÕES DE MAIRI NO CONTEMPORÂNEO

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *